Na boleia com Genésio

Todas as histórias apresentadas aqui são reais, foram gravadas ANTES da pandemia e de autoria dos próprios protagonistas.

Eu estava em Juazeiro do Norte (CE), era final de semana e tinha chegado no sábado de manhã em uma rede de supermercados onde ia fazer uma entrega. Porém, como só seria possível descarregar na segunda-feira, passei o fim de semana no estacionamento do supermercado.

Eu não estava bem naquele dia. Não me lembro exatamente o motivo, mas não estava sendo um dia bom. Aproveitando que estava dentro do pátio do supermercado, resolvi comprar o que eu precisava para preparar as minhas refeições.

Como eu já estava com uma preocupação na cabeça, não fiz nenhuma lista de compras. No momento em que entrei no supermercado, me deu um branco. Eu não me lembrava do que deveria comprar. Fiquei chateado porque teria que voltar ao caminhão para olhar o que estava faltando e fazer a lista. Quando ia saindo, passei por um corredor de produtos de limpeza. Bati o olho e vi vários pares de luvas. Então, pensei comigo: “Eu não vou voltar sem comprar nada. Vou fazer um castigo para mim mesmo”. Então, eu comprei um par de luvas.

Na parte da tarde, depois de ter feito as compras, eu estava dentro do caminhão e pensei: “Por que comprei essas luvas”? Então, eu tive a ideia de enchê-las com a pressão do ar do caminhão. Enchi, amarrei e isso me lembrou dos emojis do Whatsapp. Eu desenhei a carinha na luva, coloquei o nome de Genésio, que foi o que me veio na mente. Coloquei ele no banco do motorista e fiz o primeiro vídeo apresentando o Genésio como o meu ajudante, o menor aprendiz de caminhoneiro.

Compartilhei em um grupo de motoristas da empresa. O tempo passou e fui fazendo outros vídeos. Então, comecei a receber mensagens perguntando do Genésio, onde ele estava e o que estava fazendo. Os caminhoneiros mostravam para os filhos e as crianças gostavam muito.

Agora já temos vários vídeos. Conversando com o Genésio, eu vou contando as histórias, dando notícias, mostrando os lugares. Já estivemos na Argentina, Chile, Peru…

Aos três anos, José Luiz Marins Dias, perdeu a mãe e ficou aos cuidados de sua avó. Como era muito pequeno, não entendia o que tinha acontecido e sempre perguntava pela mãe. A avó, uma mulher simples e de criação antiga não sabia como responder ao menino e se zangava quando José a questionava sobre o assunto.

Para poupar a avó de aborrecimentos, José guardou silêncio e passou a ter no movimento dos caminhões que passavam em frente à sua casa, o consolo para a falta que sentia da mãe. Secretamente, ele alimentava a ilusão de poder viajar por lugares distantes em busca da mãe, pois não entendia que ela havia morrido.

Quando um ano ou dois depois seu avó contou que havia feito uma caderneta de poupança, José ganhou um novo ânimo, pois já tinha dado um destino às futuras economias: comprar um caminhão para procurar pela sua mãe.

Nos meses que se seguiram, José chegou a ficar doente de ansiedade. Porém, a medida que foi crescendo e entendendo melhor toda a situação, ele percebeu que não veria mais a sua mãe, pois ela já não estava em um lugar onde ele pudesse chegar com o tão sonhado caminhão.

No entanto, o amor pelos caminhões nunca morreu e José já havia escolhido o seu destino: ser caminhoneiro.

Há quanto tempo você é caminhoneiro?

Faz dez anos. Comecei justamente no dia do meu aniversário. Foi justamente o dia em que eu peguei a primeira carreta (eu nunca trabalhei com caminhão menor). Eu tive outras profissões antes, mas nunca deixei que me afastassem da vontade de trabalhar com o caminhão. Eu não me arrependo em ter insistido. Uma das melhores coisas que eu fiz na vida foi não ter aberto mão dessa profissão.

De acordo com o seu ponto de vista, quais são os maiores desafios que o caminhoneiro enfrenta?

Acho que o maior desafio da profissão é conciliar com as coisas importantes da vida. Você às vezes não pode decidir se vai ao aniversário de um filho ou quando vai passear com eles ou ver a família. Quem decide é a profissão. Então, é como se ela não dividisse você com ninguém. O primeiro desafio é se adequar a esse isolamento.

Quais são as partes mais compensadoras?

Essa profissão também retribui as exigências que ela faz. No meu ponto de vista, é um privilégio poder viajar. Eu nunca estou no mesmo lugar. Eu tive o privilégio de conhecer meu país, os Estados, o clima, a economia, a produção e a cultura de cada região. Além disso, no meu caso, pude ampliar para o Mercosul. Às vezes você sai do calor do Nordeste e em alguns dias está no Sul do Chile caminhando na neve. Então, ao mesmo tempo que essa profissão exige, ela compensa. Tem muitos pontos positivos.

Quais são os seus sonhos para o futuro?

Eu acho que o sonho de todo o caminhoneiro é ter o próprio caminhão. Ser caminhoneiro autônomo é mais benefício para a família, são mais recursos que entram para proporcionar um conforto melhor e independência. Meu objetivo é me tornar um dos caminhoneiros mais antigos em atividade no Brasil, poder dirigir até os meus 80, 90 anos, desfrutando de boa saúde.

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